sábado, 7 de janeiro de 2012

Fumar mata. Não fumar também.


Desconfia dos que não fumam. Esses não têm vida interior, não tem sentimentos.
O cigarro é uma maneira subtil, e disfarçada de suspirar.

Mário Quintana, in


FUMAR MATA

Fumar mata. Com cinco inconclusos cigarros
morrerei decerto doutro motivo.
Cigarros escondidos, obrigatórios, demonstrativos, sexuais,
cigarros ocultos atrás de livros, fumados
na casa de banho que o vento depois não drenava,
cigarros amargos e engasgados na garganta,
comprados, deitados fora,
cigarros infrutíferos como esses anos em tudo o mais,
nem rodapé biográfico mas erupção sociológica.
Fumar mata. De não fumar nada direi.


Pedro Mexia
, in

A Intimidade na Amizade

Ele encontrou alguém com quem pode falar, pensei. E eu também, pensei a seguir. No momento em que um homem começa a falar de sexo a outro, está a dizer alguma coisa acerca de ambos. Noventa por cento das vezes isso não acontece, e talvez seja melhor que não aconteça, mas se não conseguirmos alcançar um certo grau de franqueza no que respeita a sexo e optamos por proceder como se nem sequer pensássemos nisso, então a amizade masculina é incompleta. A maioria dos homens nunca encontra um amigo assim. Não é comum. Mas quando acontece, quando dois homens se descobrem de acordo sobre esta parte essencial de ser um homem, sem medo de serem julgados, aviltados, invejados ou dominados, seguros de que a sua confiança não será traída, a sua relação humana pode tornar-se muito forte e nascer uma intimidade inesperada.

Philip Roth, in "A Mancha Humana"



Sinopse
Coleman Silk tem um segredo. Mas não se trata do segredo do caso que mantém, aos setenta e um anos, com uma mulher com metade da sua idade e um passado brutalmente devastado. Também não é o segredo do alegado racismo de Coleman, pretexto para a caça às bruxas desencadeada pela universidade e que lhe custou o emprego e, na sua opinião, lhe matou a mulher. O segredo de Coleman foi guardado durante cinquenta anos: oculto da sua mulher, dos seus quatro filhos, dos seus colegas e dos seus amigos, incluindo o escritor Nathan Zuckerman que – após a morte suspeita de Coleman, com a amante, num desastre de automóvel – resolve compreender como é que aquele homem eminente e íntegro, apreciado como educador durante quase toda a sua vida, forjou a sua identidade e como essa vida tão cuidadosamente controlada acabou por ser deslindada.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas


"Prezado coleccionador:

Detestamo-lo. O sexo perde todo o seu poder, toda a sua magia, quando se torna explícito, abusivo, quando se torna mecanicamente obcecante. Passa a ser enfadonho.

Nunca conheci pessoa que melhor provasse o erro que é não se lhe juntar a emoção, a fome, o desejo, a luxúria, os caprichos, as manias, os laços pessoais, relações mais profundas, que lhe mudam a cor, o perfume, os ritmos, a intensidade.

Nem o senhor sabe o quanto perde com esse seu exame microscópico da actividade sexual e a exclusão dos outros aspectos, que são o combustível que a faz atear. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. Eis o que dá ao sexo as suas surpreendentes texturas, as mudanças subtis, os elementos afrodisíacos. O senhor restringe o seu mundo de sensações. Disseca-o, definha-o, tira-lhe o sangue.

Se o senhor alimentasse a sua vida sexual com todas as aventuras e excitações que o amor instila a sensualidade, seria o homem mais poderoso do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, é a paixão. O que o senhor vê é sua débil chama a morrer de asfixia. O sexo não pode medrar na monotonia. Sem invenções, humores, sentimentos, não há surpresa na cama. O sexo deve ter à mistura lágrimas, riso, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, todos os condimentos do medo, viagens ao estrangeiro, novas caras, romances, historias, sonhos, fantasias, musica, dança, ópio, vinho. O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas! Não há dois cabelos iguais; mas o senhor não quer que desperdicemos palavras a descrever uns cabelos. Não há dois cheiros iguais; porém, se nós nos detemos com isso, o senhor exclama: "Suprimam a poesia." Não há duas peles de igual textura; nunca é a mesma luz, a mesma temperatura, as mesmas sombras, nunca são os mesmos gestos; porque um amante, quando animado do verdadeiro amor, é capaz de vencer séculos e séculos de ciência amorosa. Quantas mudanças de tempo, quantas variações de maturidade e de inocência, de arte e de perversidade...

Discutimos até à exaustão para saber como seria o senhor. Se fechou os sentidos à seda, à luz, à cor, ao cheiro, ao carácter, ao temperamento, deve estar nesta altura totalmente empedernido. Há tantos sentidos menores que se lançam como afluentes no rio do sexo!

Só o bater em uníssono do sexo e do coração pode provocar o êxtase.»

Anaïs Nin, 1941

O Sexus de Miller



(…) E depois lembrei-me de uma coisa que me fez rir. Os homens acham sempre que ter uma grande piça é uma das maiores benesses da vida. Acham que basta agitá-la em frente de uma mulher que ela vem logo a correr. Pois se alguém tinha uma grande piça era o Bill Woodruff. Tinha um verdadeiro caralho de cavalo. Lembro-me da primeira vez que o vi – mal podia acreditar nos meus olhos. A Ida deveria ser a escrava dele, se aquela conversa toda sobre piças grandes fosse verdade. Não há dúvida de que a impressionava, mas da maneira errada. Assustava-a. Gelava-a. E quanto mais ele metia e empurrava, mais pequena ela ficava. Era melhor que a fodesse entre as mamas, ou nos sovacos. Ela teria gostado mais disso, sem dúvida. Mas Woodruff não era pessoa para ter essas ideias. Ia achá-las degradantes. Não se pode pedir à mulher que idolatramos que nos deixe fodê-la no meio das mamas. Como é que ele se satisfazia, nunca perguntei. Mas o ritual de beijar o rabo fazia-me sorrir. Não é fácil ficarmos malucos com uma mulher e depois descobrir que a natureza nos pregou uma partida. (…)

Henry Miller, Sexus



Violado ao som de Boccherini


La Musica Notturna Delle
Strade Di Madrid

No dia em que a Gripe se convidou para jantar no meu fantástico mas pueril organismo, tendo arrastado os seus melhores amigos: calafrios e febre, dor de garganta, dores musculares, dores de cabeça, tosse, fadiga, La Musica Notturna Delle Strade Di Madrid serve de atenuante; esta gravação é exemplar na forma como equilibra os brilhos da música de Boccherini, desde as castanholas do Fandango ao estilo vienense do Quarteto de Cordas. Os músicos do Cuarteto Casals e os seus convidados demonstram os infinitos recursos criativos do compositor. Um excelente CD para quem se pretende iniciar neste autor clássico italiano e um óptimo analgésico para debelar esta senhora doença infecciosa aguda que hoje resolveu me violar, não obstante a minha viril resistência.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Morte de Eve




Eve Arnold, que nasceu em Filadélfia em 1912, filha de emigrantes russos, começou por trabalhar para a revista Life nos anos 1940, considerada uma época de ouro para o fotojornalismo. Na década de 1950 foi a primeira mulher norte-americana a entrar na prestigiada Magnum, depois de ter chamado a atenção de Henri Cartier-Bresson com um trabalho sobre moda em Harlem. Ficou célebre por um conjunto de retratos de Marylin Monroe, em particular na rodagem do filme The Misfits, mas também de Joan Crawford e Elizabeth Taylor. A eles juntam-se ainda retratos de outras figuras públicas, como Jacqueline Kennedy, Malcolm X e Margaret Thatcher. De origem humilde, Eve Arnold documentou a pobreza, as minorias e os marginalizados.


Ler mais AQUI (in The Guardian), AQUI (in British Journal of Photography) e AQUI (in The Telegraph)

You can’t make a great musician or a great photographer if the magic isn’t there.- Eve Arnold

If the photographer is interested in the people in front of his lens, and if he is compassionate, it's already a lot. The instrument is not the camera but the photographer.- Eve Arnold

A studio session ... provides the greatest chance for control. [But] even though there is total freedom, I still dislike studio photography and the contrived images that usually stem from this genre. - Eve Arnold



Links:

Maria Teresa Horta persegue Leonor nos momentos mais íntimos e ainda ganha prémio



O Prémio Literário D. Dinis, instituído pela Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído à escritora Maria Teresa Horta pelo romance "As Luzes de Leonor”, obra lançada em 2011 pela D. Quixote. Trata-se de um romance sobre a vida da marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), neta dos marqueses de Távora, uma mulher que se destacou na história literária e política de Portugal num período denominado por "século das luzes". Maria Teresa Horta demorou 13 anos a escrever a biografia de Leonor de Lorena, sua avó em quinto grau, autora de uma vasta obra poética, parte dela ainda publicada em vida.

Parabéns Maria Teresa Horta.


Ler crítica ao livro AQUI (in Ípsilon, por Helena Vasconcelos)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Se conseguíssemos descrever uma vida só com palavras, não necessitávamos de transportar uma câmara




Nada como fazer uma retrospectiva do ano em imagens. Mais ainda, quando se trata de uma agência internacional de notícias como a Reuters. Neste vídeo temos oportunidade de visualizar imagens admiráveis das autoridades em fotojornalismo mundial.

Link to the images: http://blogs.reuters.com/fullfocus/2011/11/21/best-photos




A CÂMARA NÃO TEM SENÃO UM OLHO: A LENTE. SÓ PODE REGISTAR UM FRAGMENTO DO MUNDO VISUAL. O FOTÓGRAFO LEVA COM ELE O SEGUNDO OLHO. ESTE É O OLHO DA SELECÇÃO. O ARTISTA TEM AINDA UM TERCEIRO OLHO: O OLHO DA IMAGINAÇÃO CRIATIVA. ESTE TERCEIRO OLHO É O QUE PODE PENETRAR NO NOSSO MUNDO INTERNO
David H. Curl

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012



C’est une merveille, à mon âge, d’ignorer l’avenir.

Marguerite Duras, Des journées entières dans les arbres



Link:

domingo, 1 de janeiro de 2012




Thy friendship oft has made my heart to ache; do be my enemy - for friendship's sake


William Blake, A William Hayley

Souto Moura o ponta de lança da terceira geração de arquitetos portugueses modernos



Eduardo Souto de Moura foi considerado uma das 100 personalidades do ano pelo El País. O diário espanhol escolheu os 100 homens e mulheres iberoamericanos que marcaram 2011 e Souto de Moura é o único português a figurar entre os eleitos, sendo descrito como ponta de lança da terceira geração de arquitetos portugueses modernos. Para o jornal, o arquiteto português é o herdeiro natural de uma tradição que atualizou uma linguagem, retirando-lhe os ornamentos, e elogia-lhe o recurso a materiais locais e a acabamentos artesanais.



Links:
 Arquitectura Reparadora (in El Pais)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Valter Hugo Mãe um homem com queda d’água de mulher por dentro

Os romances «O Remorso de Baltazar Serapião» e «A Máquina de Fazer Espanhóis», do escritor Valter Hugo Mãe, entraram para a lista dos melhores livros do ano pelo jornal brasileiro O Globo. No suplemento de cultura, o jornal recorda que Valter Hugo Mãe desembarcou no Brasil em julho passado como um autor desconhecido e voltou como um escritor consagrado entre os leitores brasileiros. A conquista deu-se durante a Feira Literária de Paraty, onde o escritor português seduziu o público com um discurso emocionado sobre sua relação com o Brasil.







Ler mais AQUI (in Globo)


Aqui fica o texto que valter hugo mãe pediu para ler no final da sua mesa na Festa Literária Internacional de Paraty e que levou o público na Tenda dos Autores às lágrimas.


“Quando eu tinha uns 8 anos, veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.


Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam avidamente saber quem casava com quem na ‘Gabriela’.


A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.


A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.


As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, faziam vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.


Um dia a minha irmã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que  mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de midas que me transformava num menino de ouro.


Aos dezoito anos, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do ‘Tempo perdido’. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o ‘Tempo perdido’. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.


O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.


Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido, pois aqui estou, a FLIP fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso."
valter hugo mãe, Paraty 2011





Links:
Valter Hugo Mãe (Website)
Casa de Osso (Blog de Valter Hugo Mãe)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A capacidade de ultrapassar as fronteiras ideológicas

Centenário do nascimento do escritor de Alves Redol, um dos mais importantes nomes do Neorrealismo português, celebra-se hoje. Quando, em 1939, Alves Redol publica Gaibéus, obra inaugural da literatura neo-realista, Salazar tinha já feito descer a mão de ferro do regime: estavam proibidos os partidos políticos, existia uma Constituição de inspiração fascista, uma polícia política e a prisão do Tarrafal. O livro, mais do que um retrato sobre luta de classes na lezíria ribatejana, afirma-se como uma leitura profética do espírito do tempo e mostra que este autor é dono de uma obra de grande observação da realidade social que ultrapassa as fronteiras ideológicas.

"Não é difícil entender-se o que escrevo e porque escrevo. E também para quem escrevo. Daí o apontarem-me como um escritor comprometido. Nunca o neguei; é verdade. Mas também é verdade que todos os escritores o são."


in FANGA


"Vocês, os mais novos, vão encontrar belas coisas para fazer... Nessa altura, se o merecer, lembrem-se de mim."


in Jornal República, 1963
LinkAlves Redol (Website)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Não se Brinca com o Amor


Somos muitas vezes traídos no amor, muitas vezes magoados e muitas vezes infelizes; mas amamos, e quando chegamos à beira da cova, voltamo-nos para olhar para trás, e pensamos: Sofri muitas vezes, enganei-me algumas vezes, mas amei.

Alfred de Musset, Não se Brinca com o Amor